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As coisas mais estúpidas da minha natureza podem ser bonitas, às vezes. Engraçado, parece que perdi a mão. Continuo me despedaçando com coisas escolhidas a dedo pra me despedaçarem. A vida é, sim, Almodóvar na veia. Mas os ponteiros rodam sem me perguntarem qual a minha vontade. O tempo passeia nos cabelos, e torço pra que dias menos tranqüilos e anestesiados possam surgir.
Já não sento na janela pra ver a rua imóvel. Não espero, sou levada. Demoro meses pra terminar livros, e quase não tomo café. Uma persona nova a cada dia, um gosto a mais, ou a menos, na boca. A natureza humana se vira. Felicidade é um nome bonito de se falar... Sexo é dor. Saudade é dor. Prazer é dor. Amor é dor aos avessos. Tudo é dor. E a dor é bonita, como gérberas laranjas...
Caronte, levando as almas pelo Estiges, é a imagem mais bela que conheci. O movimento das águas tocadas pelo remo. Sou parte da água. Sou parte do barqueiro. Sou parte do rio. Tudo é parte. Qualquer todo é fragmentário como pétalas. E não é a beleza última o conjunto de partes distintas? Unir é um desesperado gesto de doação. E doação é um pouco suicídio.
Todos os amores me fazem parte. Sou parte de todos os homens. E sendo parte de tudo, sou um quase nada em construção.
"Quando me arderam as palavras
Metade do som me estremeceu,
Preferi a fome ao desejo satisfeito.
A fome de sua presença em mim
No profundo de mim
Quando me arderam as palavras
era noite,
metade da fome me estremeceu
A outra metade me despedaçou."
Quando você erra uma vez, não significa que tenha que errar de novo. As coisas estão bem, melhores do que pensei que fossem ficar.
Caminhar devagar até que é muito bom...
E não há céu ou inferno... A perfeição se encontra em palavras de noites de domingo. Ou em capítulos 7 de alguns livros.
* Trilha do dia: Belle and Sebastian
** Desejo do dia: sentido.
Qual é o exato tamanho da minha estupidez? Talvez menor que o de minha crueldade. Sei apenas que não consigo considerar isso bom o suficiente. Falta de jeito.
Considerando os últimos seis meses, eu poderia comemorar, agradecer, ou sentar numa pedra e chorar – ainda não decidi- estou bem, mas há sempre alguma coisa que incomoda.
Mania de humanidade... Se pesasse meus crimes, garanto que Hércules não teria feito trabalho algum, a contar minha expiação. Todos temos crimes, todos temos medos, o problema é confrontá-los regularmente. E por mais que a gente diga que não, no fundo a gente precisa tê-los sempre por perto.
Eu faço. Todos fazem. Talvez buscando conforto, talvez como prova, talvez por falta de opção.
“Espere um minuto. Eu usei cores excessivamente vivas para pintar meus dias. Não há nada de estranho, não há nada pra mudar. Apenas não acho necessário provar minha necessidade. A espera humana não é amor. Não existe nada pra curar. Cantei seus nomes por três vezes na chuva. Eu fiz isso. Eu realmente fiz isso. Quando chegarem, isto tudo vai estar limpo. Eu não posso mudar”.
* Não vou me forçar a arrumar a cena...

...Acorde na quarta, pensando que é domingo.
Das coisas mais bonitas que já vi na vida, acho que as mais vivas foram sempre as mais simples: homens trabalhando sob o sol, grafites, declarações de amor, mulheres varrendo os jardins...
E quem não sabe que a beleza reside também na miséria?
As pessoas vivem procurando um sentido na vida, eu não encontrei o meu, acho que tudo bem, dias regados a trabalho, noites à palavras e perguntas. Felicidade é mais questão de lugar do que de estado emocional, e o meu anda péssimo!
Queria, ao menos uma vez, não morrer por coisas tolas.
COMO TE EXTINGUES em mim:
ainda no último
e gasto
nó de ar
estás lá com uma
faísca
de vida.
Paul Celan