Entre meus rins…

As coisas continuam… e continuam sempre.

Motivos de nascimento…

28 de dezembro de 2006

Há muito evito pensar nos meus íntimos, meus abismos em mim mesma, tenho fugido, mas sei que eles estão todos lá, rodeando as minhas fogueiras de Beltane. Não é que eu esteja sendo covarde, apenas coloquei minhas paixões um pouco de lado, pra respirar outros ares, girar incessantemente em volta de uma mesma coisa estava deixando minha cabeça tonta, escapo para ser racional (ao menos um pouco.), minhas maneiras de ser precisam ser um pouco mais civilizadas, nem que seja para um pouco de proteção.

Tomo chá com a solidão todos os dias, sempre no mesmo horário, quando o sol se recolhe pra dormir, convivi a vida toda com essa sensação de que falta algo, há algum tempo entendi não me faltar nada, é sensação que ganhei de herança, e que me transborda em tardes de chuva forte.

 Pra ser sincera, acho que desacostumei estar acompanhada, ter alguém pra passar parte das horas (e vê bem que digo "parte", em geral os apaixonados querem estar o tempo todo ao lado da pessoa amada.), gosto de ser só, aprendi a ser só, apanhei na cara, mas aprendi.

Acho que nasci para comprar porções individuais, visitar sebos, ouvir discos (LPs, por favor…) de minhas bandas favoritas no meio da noite, com uma xícara de café forte. Nasci para dançar sozinha no tapete da sala, abraçando vestidos. Nasci para ter cachorro me esperando no apartamento, pra deixar calcinhas no box do banheiro de vez em quando (e que mulher nunca fez isso?), comer brigadeiro de madrugada assistindo filmes que tenham, no mínimo, vinte anos de idade, pra ler meus livros favoritos pela trigésima vez, sem me incomodar em lembrar quase todas as falas das personagens.

Sou mulher pra ler poesia às 3:40 da madrugada, pra ir em bares escondidos em becos da cidade, só por que me parece underground, pra beber vodca pura, sou mulher que chega ao orgasmo sozinha, e que não tem vergonha de assumir isso, nem puritanismo quando o assunto é sexo. Sou mulher que assumiu, e assume pra quem quiser, sua própria sexualidade.

 "Eu acho que nasci procurando o infinito", nasci com adoração à arte de contestar, com ânimo incansável para revoltas e revoluções (a começar por revoluções em mim…), com voz firme e garganta resistente, para gritar amores e horrores em praça pública. Nasci com sede, mas não de água, minha sede é de vida, minha vida escorre garganta abaixo, como remédio amargo, mas vital.

Uma vida acompanhada não me comporta, uma vida em casa não me comporta, um homem não me comporta, paredes não me comportam. Uma vida calma não me comporta. Um único amor não me comporta.

Basta um único gesto que beire o aprisionamento, ou que pareça me limitar, e estou a anos-luz de distância, não suporto grades, sufocamento e cobrança. Não abro mão de minha individualidade, não abro mão de minha leveza, não abro mão de mim mesma, ainda que o outro seja atraente aos olhos.

 

Eu preciso existir em expansão. Preciso ser em expansão. Preciso amar em expansão.

 

Realmente, acho que fui escolhida a dedo para ser sozinha, abraço de solidão não fere, confronta. Ainda não encontrei alguém que me deixe existir em mim mesma, que entenda que amor solta as correntes e enche os pulmões de ar, e não o contrário (a não ser um amigo de Porto Alegre).

 

*Nilton, meu querido, obrigado pela companhia, tão constante nos últimos dias, e por se parecer tanto comigo, você tem salvo meu humor…

**Ex-namorado ligando no celular, e vinte minutos de conversa depois, um doce carinho me toma. Eu amei este homem também. E talvez ele tenha me amado mais do que qualquer outro, e esse foi exatamente o problema que causou o fim do nosso relacionamento.

***A mãe do meu filho é uma velha amiga, dos tempos de colegial, ela é peça que sustenta minha base, amiga pra todas as horas, colo, conforto, e metralhadora de verdades que só ela tem o direito de me dizer, pelos anos de amizade, e pela ligação de eternidade que nos une. Vou batizar o Leoni, fui convidada pra ser madrinha, e bancando a mãe coruja, meu filhote é o bebê mais lindo do mundo. Karol, obrigado por tudo,até mesmo pelos atos suicidas que cometemos, por que estavámos vivas, e obrigado por ter nos presenteado com o Leoni. Eu amo você, minha amiga.

 

Licença, volto pra mim, cantarolando a poesia de nosso grandioso Cartola (e quem não gosta que me perdoe, mas ele é divino!)…

O natal passou

26 de dezembro de 2006

Festas de fim de ano, grande coisa, aqui debaixo de meu telhado nada muda, as coisas estão como foram deixadas há anos atrás, abandonadas por conta-gotas, apenas a conta bancária sente a mudança, por mais que não se goste da data, presentear é obrigação.

Serão dias comuns, noites comuns, presença de meu irmão e meus dois cachorros apenas, os três e eu. A história de "união familiar" não faz parte de nosso cotidiano há muito tempo, nem as festas de fim de ano, nada de novo riscando o céu de minha medíocre existência.

Fica apenas a impressão conhecida na pele, algo que beira a solidão, sorte minha ser boa atriz, assim me exponho um pouco menos, senão seriam inúmeros tapinhas nas costas e mensagens esperançosas de melhora, coisas que, sinceramente, não suporto. Desde cedo aprendi a existir sozinha, mas confesso que, às vezes, queria alguém pra ceder-me colo e silêncio.

 Ficam vácuos, vazios, ficam tristezas, que se por um lado machucam, por outro inundam-me de poesia e lirismo. Meu ponto forte é fraco, meu ponto fraco é marco de força em mim, na fila das qualidades e defeitos só passei uma vez, e o que adquiri serviu-me tanto de bem, quanto de mal.

São cinco dias pra acabar este ano? Desculpe a pergunta, é por que na dimensão onde sou o tempo não se conta, é fonte que jorra, traz vida e morte, e sempre renasce as cinzas de mim, Ó eterna Fênix. Meço a eternidade em anos-luz.

Não vou colocar meu ano na balança, uma coisa que me falta é equilíbrio, e justamente quando acho que vou conseguir um pouco mais de sanidade (ou normalidade), me destruo, porque perderia a essência se encontrasse o eixo, o ponto exato para existir.

Condeno a morrer e renascer, e se alguém tiver a coragem, aconselho que se permitam viver assim, sem atenuar sentimentos e sensações, ainda que só por um dia. Aconselho que se permitam. Que uma vez ou outra vivam Intensidade. Que aprendam para desaprender, que amem só pra sentir calor no corpo, ainda que o preço pareça alto.

A vida foi suficientemente dura comigo, então precisei agarrar rápido seus poucos afagos, por isso sei que meu arrastar por sobre esta terra foi mais verdadeiro, não tenho tempo para alimentar dores ou causar-me males eternos, eu absorvo-os e dissolvo no sangue, queima, claro como a luz do Sol, mas evito desperdício.

A dor que sinto acaba fazendo parte de mim, como devia ser sempre, os amores guardo no íntimo, para que floresçam silenciosamente, e para que eu possa observá-los e contemplar a beleza que tiveram, e realmente, eles foram belos. Solidão é palavra bonita, minha solidão nada têm de assustadora, é a presença constante de minha vida.

 

*Hoje entrei 12:00 no trabalho, então aproveitei pra ir à casa de minha irmã, cheguei às 8:00, ela estava com enxaqueca (mal de família…), sai, fui até a farmácia, passei na padaria para comprar algo pra ela comer, fiz chá, massagem, velei o sono dela…

Levei os presentes dela, lavei a louça, varri a casa…Sentia falta desse convívio, sinto ainda…

 

**Algumas escassas ligações, o Cidão me pedindo em casamento (disse que se não nos casarmos a loucura das mulheres de minha família me vence…), e planejando uma viagem nossa no carnaval.

 

***Anestesia, por favor…Assim levei meus últimos dias…

Céus e infernos entre 24 horas…

21 de dezembro de 2006

Sou mar de sensações, a noite de ontem foi céu e inferno, enquanto a vida corria neste universo, eu, a Fí e o Tigrão paramos o tempo. Não haviam horas, apenas o momento de estar. Estar ali. Estar presente.

 Cheguei na casa da Fí e tomei banho, vesti um shortinho dela (que me deixou com pose de funkeira!!), e fomos os três para a pracinha, para deixar as respirações no mesmo ritmo. Feito isso, brigadeiro de panela, e massagem (Tigrão disse que casa comigo, se eu fizer massagem nele todos os dias…) rotativa.

O Tigrão é o único homem que me suportou até hoje, é meu relacionamento mais duradouro (sete anos), ele aguentou as três mulheres de nossa parte da família, está pra nascer alguém tão paciente, e que nos ame mais…

Eu de sutiã e short, minha irmã de pijama, nossos pés descalços e sorrisos largos, e uma felicidade que impregnou aquelas paredes de vida, e causaram inveja nos móveis.

O mundo era só aquele momento, e nada mais importava. Montamos a pizza, e claro que eu e o Tigre tínhamos que desordenar as coisas, PIMENTA!!!!!!!!!! E não é que a tal ficou boa (até animou mais a noite…), cerveja, animação (a Nilza e o Cláudio chegaram depois, com o baby, e não tem como ficar séria com essa mulher.), sai de lá quase uma da manhã, essa é uma de minhas melhores partes, a irmã e a amiga.

Ainda tive ânimo para desenterrar ossadas com minha mãe, mais brigas (o tal do clima natalino não faz diferença numa casa onde reinam a conveniência e a aparência…), resultado? Solidão e insônia, e paredes pra testemunhar…

 Hoje levantei às cinco horas, por inquietação, e meti um Beatles no som pra fazer o sangue descongelar, alguém ouvindo Beatles às cinco deve, no mínimo, ser meio estranho.

De mais, o trabalho, alguns e-books que baixei (companhia de gente que nunca têm companhia: livros.), Tom Jobim e Bethânia, por que sou toda lírica e sofro de paixão crônica,  a poesia de Nikesh Murali, que me auto-apresentei no dia de hoje, e um leve desconforto com gosto de abandono.

 

 *O gosto amarga a poética deste pedaço de tempo, sigo entoando cantigas de roda com a solidão…

**Nilton, nós iremos rever nossos conceitos, meu querido?

***"Pernas que parecem exclamação". E sentimentos reduzidos à esporádicas conversas…

 

"Em mim entras

E me deixas

(…)

E agora como uma faca

Fatias meus fingimentos

E viajas às regiões exteriores

 (…)"

 Meu respirar, Murali

Mudança de planos…

Ainda não entrei no clima de fim de ano, pra mim nada mudou, já comprei uns presentes, espero a chegada de outros, faltam mais alguns…

O meu dia a dia segue normalmente, uma ponta de sanidade pra segurar a barra, hoje estou "moça séria", trabalhando muito, cuidando das coisas de casa, responsável e madura, até que os pés pisem lá fora.

Como o Pietro continua doente, e por consequência, em casa, o cinema não vai rolar. Por isso vou pra casa da Fí à noite, vamos montar pizzas!!! Eu, ela e o Tigrão. Pizza, vinho, e discussões sobre nossas vidas, saio de lá uns três quilos mais leve, aposto.

Tenho sentido muito a falta dela nos últimos dias, às vezes eu quero me afogar no seu afago. As aulas na faculdade acabaram, agora me sobram horas de solidão para que a cabeça ferva idéias e a alma, sentimentos.

Ando bem mais calma (Nilton, às vezes, e só às vezes, a distância ajuda…), tenho me interado no mundo, e me confrontado todos os dias com minhas verdades, se bom, não sei, se ruim, sei que não. Abro os olhos para que entre mais luz nos meus dias, eu descubro o caminho com os pés em movimento.

Estou atacando de artista plástica!! Hoje um colega de trabalho disse que precisava de um quadro pra presentear a esposa na segunda, e eu me ofereci pra pintar o dito cujo, pesquisei os preços dos materiais, vamos ver o que sai da minha "capacidade criativa"…

 Hoje li poemas do Bocage, ácido por natureza, e manti minha tranquilidade fincada no chão, resolvi despertar minha natureza artística, conversei com uma amiga durante meia hora no telefone, para puxar do poço minhas raízes…

*Achei um professor de xadrez, só que ele mora em Porto Alegre (Nilton???????)

**Trilha de hoje: Nando Reis.

(Post escrito em 20/12, e novamente o Terra não ajuda…).

Coincidências…

20 de dezembro de 2006

Ironia das ironias…ontem a Deusa pregou uma peça em mim. Como escrevi no final do post anterior, eu tinha combinado de me encontrar com o Pietro depois que saísse do trabalho. Não sei por que diabos resolvi descer a pé (tenho mania de movimentar as pernas quando quero me encontrar, preciso sair do lugar pra encontrar meu lugar, quase nunca acho, e quem sofre sempre são os pés, que nunca são avisados que andarão por horas em um salto agulha…).

Cheguei sedenta pelo suco de abacaxi com hortelã, depois de 40 min. de caminhada, e perguntei à dona da livraria onde o Pietro estava, disse que na seção de discos de vinil (óbvio!), enquanto eu me dirigia pra lá, passo pelo corredor de literatura…

Os pés voltaram três passos e não segurei a risada, ele estava lá, procurando presentes, disse ele que era o meu, o mesmo que disse já ter comprado há dias, se nós combínassemos não teria dado tão certo…

E eu que firmei os pés na decisão de vê-lo apenas em fevereiro, quando as aulas começassem, e ainda assim, por que não tinha outra saída, fui pega de surpresa pelas circunstâncias, pega de tal modo que a raiva que senti dele na última vez que nos vimos deu lugar ao bom humor, não fui capaz nem mesmo de esconder o sorriso, a boca refletia a alma desarmada…

Enquanto a gente conversava, a dona da loja se lembrou de que o Pietro estava doente, e que não tinha ido trabalhar naquele dia. O suco de abacaxi virou cerveja, conversa e caminhada pelos becos de nossa cidade (não há como negar que ele sabe ser agradável em alguns momentos), de mãos dadas.

Não ficamos, apenas desfrutamos a companhia que o acaso nos proporcionou. Isso não muda em nada o rumo de minhas decisões ou das decisões dele, seguimos cada qual com a vida que lhe cabe, com o rumo que se deseja.

*Hoje, a manhã foi regada à conversa com o Nilton, pelo msn, e nós dois sempre descobrimos algo pra sermos parecidos…

Meu querido, gracias pela companhia (e por me mostrar que não estou sozinha nesse mundão…).

**A sobrinha do meu ex-namorado, de cinco anos, me ligou, pra dizer que está com saudade, eu ganhei ela de presente quando comecei a namorar o Giu, ela é orfã de pai e mãe, acabei criando laços de mãe e filha…

A pior coisa do fim do meu relacionamento foi ter me afastado dela pra poupar o Giuliano.

 O que quer que tenha sido, tê-lo encontrado ontem me deixou com um leve sensação de impotência…

(Post escrito em 19/12, não publicado graças aos "serviços" do Terra)

Minha insustentável leveza de ser…

18 de dezembro de 2006

Minha leveza é insustentável, meu anseio de paz é loucura, minhas partículas são insanas…

 Meus fragmentos não constituem todo, e assim sigo meu caminho riscando o céu da existência como palito de fósforo.

Particularidades minhas não atraem expectadores, além de meu público cativo, ser única exige um preço a ser pago, um tanto quanto exorbitante, penso na facilidade que é ser mais uma, e dá uma pontinha de vontade de sumir na multidão.

A comodidade é muito atraente, não dá pra se negar, ontem assisti "A insustentável leveza do ser", empréstimo de Pietro, sozinha, na escuridão da sala de minha casa, rodeada de fantasmas antigos e vazios que se renovam diariamente no meu peito.

O filme é maravilhoso, se passa durante a invasão das tropas soviéticas em Praga, Tchecoslováquia, meados de 1968, um neuro-cirurgião é obrigado a decidir entre o amor e a luta ou o prazer e a comodidade de conformar-se e fechar os olhos.

Sensual, sensível, do tipo que toca a pele por um breve sopro de tempo e imprime sua marca por toda a eternidade.

Sexta fui até a casa dele( isto é seu, devolva o que é meu, depois pego o resto de minhas coisas…) para quebrar os vínculos que não chegaram a existir de fato, o reflexo menor estava lá, sentada na frente da TV, jogando videogame. Ele tentou o máximo de cordialidade e polidez, claro que não funcionou.

Fugi, minhas armas tombaram, eu tombei com os joelhos no chão, senti raiva, ódio, desejei que ele nunca tivesse cruzado os trilhos do trem de minha vida. A simples presença dele me deu ojeriza, não suportei assistir à ruína de meu sentimento.

Não suportei ver o amor metamorfosear-se em repulsa. Fugi porque nunca mais quero sentir isso correndo em minhas veias, não quero que isso se confunda com minhas naturezas.

 Não aceito que um sentimento torpe apague a beleza de ter amado, ainda que incompreendidamente. Foi por isso que fugi, e não por causa dele. Essa sensação é indigna de minhas entranhas.

Fui ao shopping (ótimo lugar pra fugir de gente…), banquei a louca num café, pedindo o que o garçom achasse melhor, depois fui assistir o Almodóvar no cinema, sozinha, é claro!

Engraçado, mas depois de todo esse tempo sozinha ainda estranho minha existência solitária, de vez em quando, poltronas vazias num cinema contribuem muito para isso.

Bom, depois do filme choro na escada do complexo de lojas, choro para lavar a alma e fazer chover no mundo, choro compulsivo, entremeado de soluços e perguntas desesperadas…

Sábado, "almoço" com o Pietro (o único capaz de violentar as muralhas de minha tristeza…), onde fui presenteada com um LP do Smiths (raridade!), com um convite para o Almodóvar (vou assistir de novo!) e com uma companhia cheia de vivacidade!

Pietro e eu decidimos casar daqui a 80 anos!

Depois, o aniversário de uma amiga, com toda a galera lá, risos, risos, risos e declarações de amor (até dormi no joelhos de um amigo, com quem já tive um "casinho"!), fotos, assassinato de saudade…

Ontem, depois do filme, insônia e mais choro, como quem tinha desaprendido chorar, e encontrou o caminho para o vale de lágrimas. Lágrimas inundam meus campos estéreis novamente…para fertilizá-los.

*Bem, na larga medida do possível. Aqui ou na China, algumas coisas nunca mudam…

**Como disse hoje ao Nilton, meu corpo reflete as inquietudes da alma…tenho o peso de XV séculos nos ombros.

***Na sexta, o garçom trouxe um cappucino, em meio a um calor de 40°, que não tomei, depois pedi um expresso, que também não tomei… Em minha garganta estavam o amor e o ódio por um homem, e enquanto os dois batalham, nada desce ao meu subsolo… *

***Hoje vou ao trabalho do Pietro depois que sair do meu, pedi pra ele procurar uns livros, tenho que devolver o filme, levar um cd que gravei pra ele, e salvar minha alegria tomando suco de abacaxi com hortelã (que é o favorito dele!).

Declaração de amor a E.V…

Meu doce E., falhei de novo, não tenho as respostas, não me igualo a G.H., embora tenha plantado no teu íntimo minhas sementes de girassol.

Quantas vezes não nos sentamos para falar sobre solidão, meu querido? Ou nos calamos para respeitar o silêncio que tomava posse? Foram sempre os mesmos vazios, as mesmas questões fervendo as entranhas, as mesmas inquietudes da alma.

Nosso ânimo para falar de bandas velhas, cheirando a poeira e barata (sempre tivemos vocação para rato!). Nosso cigarro, que eu vivia tentando largar e que você adotava como filho, a paixão pela literatura (você largou o Direito por ela!), o apego ao vazio, ao outro lado…

Nosso vazio, E., nosso vazio tão singular, tão meu e seu.

É meu amado, roubaram-nos a solidão, quebraram nossas janelas, arrebentaram a fina teia que mantinha nossas paredes de pé. Levaram nossas preces, que destinávamos ao deus que não tínhamos. Nos levaram espada, elmo e escudo.

Nossos ideais utópicos, os sonhos, nos despiram da rebeldia, da audácia, do gosto pela vida em sua crueza, sem atenuantes. E você me diz hoje que assassinaram o que você era (Da primeira vez que me assassinaram…Mário Quintana, lembra?).

 Eu criei raízes, habituei os pés ao conhecido, e hoje tenho medo. Eles me domesticaram, me enjaularam, e me mantêm viva com migalhas que despejam em minha tigela.

Hoje arrasto correntes, mediocridade de minha existência, fecho os olhos, fecho o monstro dentro de mim, fecho o corpo.

Você presenciou minha metamorfose, e consentiu com um aceno de cabeça. Fazíamos uma bela dupla, malditos sejam aqueles que escancaram a verdade, fomos perdição.

Rasgamos com as unhas e os dentes o tecido da conveniência. Rasgamos a alma como folha de papel.

Estou aqui, meu amado E., não sou G.H., mas tenho o colo e a mudez que precisa, em cada uma das mulheres que sou.

*O amor só destrói quando se esquece que é necessário ar para respirar.

Respire, meu doce E., respire. As sementes germinam, e que nasçam os girassóis…

***Érico Vinícius, isso é pra você… são palavras de G.H, mas servem pra nós…

(…) – E então não suportei mais a tortura e confessei, e estou delatando. Não suportei mais e estou confessando que já sabia de uma verdade que nunca teve utilidade e aplicação, e que eu teria medo de aplicar, pois não sou adulta bastante para saber usar uma verdade sem me destruir.

Fragmentos meus num jornal velho…

14 de dezembro de 2006

Sigo o caminho que meus pés traçam a cada dia, não tenho metas ou objetivos, faz muito tempo que os abandonei, pois serviam apenas para que eu me culpasse depois por não tê-los alcançado.

Sensivelmente melancólica, me sinto sozinha, e eu sei o quanto a solidão é desconfortável, na verdade eu tenho mesmo é medo de me encarar, medo e vergonha, sou como todo mundo, fujo de mim.

Meu passado não é nada louvável…

O amor foi guardado numa gaveta, tiro-o de lá quando aprender a se comportar, quando parar de me expor, quando deixar de ser algo que me fira, aí então eu tiro esse "diabinho" da gaveta.

Tenho afundado no trabalho, tomei algumas decisões, desisti de outras que serviriam apenas para mascarar a realidade, e eu não preciso disso. Os amigos fazem uma falta…

Minha irmã, a Nana, me ligou, quer que eu viaje pra lá no natal, mas acho que vou ficar por aqui mesmo, não estou muito animada, hoje "A Dama das Camélias" me emocionou de novo (Nilton???).

Tenho desabafado com paredes, mas nunca fui muito de me abrir mesmo, tenho pavor de que me conheçam totalmente, mas eu acabo sendo meu traidor todas as vezes…

Um recorte de jornal antigo, um dedo na ferida, uma exposição em outra boca que não a minha…

"…A minha verdade é bruta. O meu sentimento é bruto. Acho que sou toda bruta. A vida fica desajeitada em mim."

"…A vida primária escorrendo garganta adentro. A vida sem contornos que quis fugir para outras paisagens, para qualquer lugar que fosse melhor que ficar remoendo minha ira silenciosa."

"…Flertamos, chegamos perto de algo definitivo, mas faltaram cheiros e gostos, faltaram fantasias. Ou, se elas existiram, deixei escapar num momento de dúvida e desamor."

"…por isso que escrevo, para não perder o pensamento, e assim, quem sabe, as coisas vão caminhando e um dia me encontro no ponto certo de mim e deixo de ser tão insípida."

"…Por pouco não nasci na Espanha. Mas nasci toureira por determinação da natureza. As leis do universo falharam."

"…Preciso salvar-me de mim mesma, de meus sonhos, de minha ingenuidade. Qualquer sonho ou promessa de amor me deslumbra."

"…Na verdade todas essas reflexões são endereçadas à loucura. A loucura de existir desnudamente. Preciso estar um pouco mais escondida. Tenho de aprender a caminhar pelos meandros das mulheres sedutoras. Das mulheres que se revelam aos poucos, ou que nunca se revelam."

"…minha essência é o amor de braços abertos sangrando numa cruz."

"…ainda me permito a liberdade de amar sem passagens subterrâneas."

Fragmentos de mim num jornal. Sou toda extremos, nasci na lua errada…

Sobre silêncio forçado e medo

11 de dezembro de 2006

As palavras teimam em forçar silêncios, não querem sair, não querem quebrar a longevidade de uma tarde inquieta.

Dias anestesiada, uma cabeça pesada, olhos fundos devido às noites insones. O mundo não me tem mostrado os dentes em sorrisos, não têm sido fácil conviver comigo. Tudo é desordem, tudo é caótico, sou toda desacordos.

Uma dignidade irritante por que não sou brinquedo velho, não me sujeito obedecer a vontades alheias, cansei de proteger outros e me obrigar a pagar o preço sozinha. Não tenho alguém que cuide de mim, então eu devo cuidar.

 No fundo estou furiosa por que assisti a tudo calada, por que fui incapaz de gritar bem alto o que desejava, o que achava necessário pra mim. Deixei que guiassem meu carro de Apolo ao bel prazer, como se eu não fosse dona de meus amanheceres, como se não fosse Senhora de meu caminho. Basta. Foi o suficiente, agora basta.

Não hei de me sujeitar. “Não se resigne”, é isto. Travo guerras comigo. Mato-me mil vezes, se necessário, mas construo minhas verdades, sem querer ignorá-las depois. Acabo encontrando meu próprio caminho, para perder-me nele depois. Não há de ser o mais cômodo, é certo. Mas é o meu.

Não tenho medo de encarar a realidade, porém me tomam mais fraca do que sou, me julgam imatura, que seja então. Sigo só, mas de cabeça erguida. O desejo chamou um nome três ou quatro vezes, e não obtendo resposta, guardou-se no armário empoeirado das lembranças, sentindo ainda a língua quente nos campos da pele.

O que me assusta não é a solidão, pois eu me adapto bem aos meus maus modos (capacidade de adaptação, lembra Nilton?), não me assustam os esforços perdidos, que escoam pelo ralo, não me assusta a rejeição de um sentimento que só desejava estar presente. O que me assusta é a ruína. A ruína de tudo o que construí.

E para evitar que meus olhos sejam testemunhas disso, me guardo como brinco sem par no porta-jóias.

 “(…)e para mim não havia chave nem barcarola,

nada senão uma ferida pelo amor aberta…”

Abandono-me em mim. Deixo-me estar perdida em meus labirintos…

 Não preciso de mais nada, é isso, e só.

8 de dezembro de 2006

Por onde passo eu deixo fragmentos de mim. Uso frases soltas, sou frase solta, não me fixo, ou a palavra que fugiu na hora da explicação. Sou várias para ser uma.

Sou a simplicidade de Adélia, a doçura de Cecília, a altivez de Clarice. Sou todas as mulheres, sou meu homem, meu deus e meu demônio. Mistura no caldeirão que ferve, sou lendas milenares, sou mito. Meus pés ardem na fogueira.

Sou veneno queimando no sangue, sou o doce gosto da Ambrósia na memória da língua. Contam-se XV séculos desde meu nascimento, tenho sido alento para alguns homens e desgraça para outros, sou mão de justiceiro e dedos leves de ladrão.

Sou sem estar. Passo despercebida.

Sou a beleza que engana. A beleza que fascina e mata. Sou a que dá vida.

Errante. Eterna. Sou deserto, areia nos olhos. Os que se arriscam se perdem, sou sol escaldante. Vertigem e miragem. Distância entre a duna quente e o oásis. Sou intensidade, promessa e maldição.

Sou partes para formar totalidade. Nunca me completo, pertenço aos espaços em branco, ao vazio de não pertencer. Mutante imutável. Não cedo chaves, não abro vagas para que entrem em mim, não permito invasões.

Sou ansiedade de espera no portão. Amante. Sou bandeira inflamada pelo vento. Não tenho pátria, minhas paixões são minha casa. Amo intensa e infinitamente, até o eu retire todo o sumo, até que o amor mate a sede. Amo amor de entrega, me desnudo, me satisfaço no prazer do outro. Sou eu e ele, tomo formas, me caço dentro de mim.

 Pago preços e cobro juros. Sou fiel à sensação que o outro provoca em mim, e não a ele. Tenho uma forma violenta de vivenciar as coisas. Não sei acalmar sentimentos. A discrição foge de mim, e eu fujo da monotonia.

Sou porra louca, tenho milhares de impressões digitais na pele. Fui de muitos sem deixar nunca de ser minha. Azar de quem não soube me receber como presente, sou rápida como estrela cadente, e costumo queimar mais…

Sou alívio e martírio. Cruz, dor e calvário. Sou ressurreição no terceiro dia e ascensão ao céu. Olhos que fulminam e que prometem primaveras. Tarde outonal, silenciosa e explícita.

Oscilo entre amor e ódio, entre bem e mal. Fui santa e profana. Salvação e perdição.

Sou toda opostos, nunca estou saciada, sou todos os extremos possíveis. Não faço acordos, não estipulo limites, não delimito territórios. Estou sempre aberta para visitações, sou praça abandonada, parque de diversões.

 Sou pau pra toda obra, em minha natureza sou mãe, amante, filha. Sou luz e trevas, deusa e sacerdotisa. Em mim se misturam os papéis, “tenho fases como a Lua”.

Nem doce, nem amarga. Nem alegre, nem triste.

Em mim sou muitas que não enchem um copo d’água numa manhã de sol. Sou nada, ninguém me têm. Sou minha, e só.

E assim me fiz Mulher.

 *Ontem vi o fantasma na fila do supermercado, com o espelho menor. Alívio, a carne é humana como a minha.

**Adélia Prado, Cecília Meireles e Clarice Lispector. Essas mulheres dividem o direito de minha maternidade.

***Estou sozinha, e a solidão até que me cai muito bem.

****Nilton, suas perguntas estão rodopiando em minha cabeça, tentam fugir, e encontram o crânio. Obrigado, meu querido, por sua companhia…

Posts mais antigos »

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://entremeusrins.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.