Entre meus rins…

As coisas continuam… e continuam sempre.

8 de dezembro de 2006

Por onde passo eu deixo fragmentos de mim. Uso frases soltas, sou frase solta, não me fixo, ou a palavra que fugiu na hora da explicação. Sou várias para ser uma.

Sou a simplicidade de Adélia, a doçura de Cecília, a altivez de Clarice. Sou todas as mulheres, sou meu homem, meu deus e meu demônio. Mistura no caldeirão que ferve, sou lendas milenares, sou mito. Meus pés ardem na fogueira.

Sou veneno queimando no sangue, sou o doce gosto da Ambrósia na memória da língua. Contam-se XV séculos desde meu nascimento, tenho sido alento para alguns homens e desgraça para outros, sou mão de justiceiro e dedos leves de ladrão.

Sou sem estar. Passo despercebida.

Sou a beleza que engana. A beleza que fascina e mata. Sou a que dá vida.

Errante. Eterna. Sou deserto, areia nos olhos. Os que se arriscam se perdem, sou sol escaldante. Vertigem e miragem. Distância entre a duna quente e o oásis. Sou intensidade, promessa e maldição.

Sou partes para formar totalidade. Nunca me completo, pertenço aos espaços em branco, ao vazio de não pertencer. Mutante imutável. Não cedo chaves, não abro vagas para que entrem em mim, não permito invasões.

Sou ansiedade de espera no portão. Amante. Sou bandeira inflamada pelo vento. Não tenho pátria, minhas paixões são minha casa. Amo intensa e infinitamente, até o eu retire todo o sumo, até que o amor mate a sede. Amo amor de entrega, me desnudo, me satisfaço no prazer do outro. Sou eu e ele, tomo formas, me caço dentro de mim.

 Pago preços e cobro juros. Sou fiel à sensação que o outro provoca em mim, e não a ele. Tenho uma forma violenta de vivenciar as coisas. Não sei acalmar sentimentos. A discrição foge de mim, e eu fujo da monotonia.

Sou porra louca, tenho milhares de impressões digitais na pele. Fui de muitos sem deixar nunca de ser minha. Azar de quem não soube me receber como presente, sou rápida como estrela cadente, e costumo queimar mais…

Sou alívio e martírio. Cruz, dor e calvário. Sou ressurreição no terceiro dia e ascensão ao céu. Olhos que fulminam e que prometem primaveras. Tarde outonal, silenciosa e explícita.

Oscilo entre amor e ódio, entre bem e mal. Fui santa e profana. Salvação e perdição.

Sou toda opostos, nunca estou saciada, sou todos os extremos possíveis. Não faço acordos, não estipulo limites, não delimito territórios. Estou sempre aberta para visitações, sou praça abandonada, parque de diversões.

 Sou pau pra toda obra, em minha natureza sou mãe, amante, filha. Sou luz e trevas, deusa e sacerdotisa. Em mim se misturam os papéis, “tenho fases como a Lua”.

Nem doce, nem amarga. Nem alegre, nem triste.

Em mim sou muitas que não enchem um copo d’água numa manhã de sol. Sou nada, ninguém me têm. Sou minha, e só.

E assim me fiz Mulher.

 *Ontem vi o fantasma na fila do supermercado, com o espelho menor. Alívio, a carne é humana como a minha.

**Adélia Prado, Cecília Meireles e Clarice Lispector. Essas mulheres dividem o direito de minha maternidade.

***Estou sozinha, e a solidão até que me cai muito bem.

****Nilton, suas perguntas estão rodopiando em minha cabeça, tentam fugir, e encontram o crânio. Obrigado, meu querido, por sua companhia…

Arquivado em: Sem categoria I

2 Comentários »

  1. Comentário por Taty — 8 de dezembro de 2006 (23:33)

    Glenda;

    Não sei se fico feliz por se identificar com meus textos, pois sempre que sento aqui em frente ao meu computador, na cidade que nunca pára, é para dar vazão a esta cabeça que funciona no mesmo ritmo, e não é sem dor…

    Preferiria que seu caminho fosse mais tranqüilo, mas isto não está em minhas mãos, e sim nas tuas. E mais, às vezes me questiono se ser assim é opção… Claro que fico vaidosa por gastar seu tempo acessando minha página, Obrigada.

    Fico aqui, de voyeur, na torcida para que se liberte e para que se libertem,para que amem, se amem, ou não, mas com paz no coração; até vou te emprestar a música que ganhei de uma amiga amada, tem e minha cara, e quem sabe a sua também.

    Beijos, para vc que como eu é mulher em milhares!

    Taty

    O último blues
    Chico Buarque

    Essa menina que você seduz
    E um dia depois
    Sem mais nem mais, esquece
    Ela, no fundo, é uma atriz
    Quando beija a sua boca
    E nada acontece

    Essa menina que você seduz
    Agora é uma atriz
    Saída de outra peça
    Chamada “Doces Ardis…”
    Quando beija a sua boca
    Ela começa a fraquejar
    Por onde anda a sua mão
    Você só quer se aproveitar
    E ela delira
    Rodopiando no salão
    Os dois parecem um casal
    Mas é mentira

    Essa menina pode ir pro Japão
    Na vida real
    Você é quem enlouquece
    Apaga a última luz
    E nos cantos do seu quarto
    A figura dela fosforesce
    Ao som do último blues
    Na Rádio Cabeça
    Se puder esqueça
    A menina que você seduz

  2. Comentário por Aliadopoars — 11 de dezembro de 2006 (5:48)

    Querida Glenda, bom dia e bom começo de semana!
    Três dias depois, que parte do crânio os rodopios daquelas perguntas ainda estão encontrando?
    Beijos aliados

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