Minha insustentável leveza de ser…
18 de dezembro de 2006
Minha leveza é insustentável, meu anseio de paz é loucura, minhas partículas são insanas…
Meus fragmentos não constituem todo, e assim sigo meu caminho riscando o céu da existência como palito de fósforo.
Particularidades minhas não atraem expectadores, além de meu público cativo, ser única exige um preço a ser pago, um tanto quanto exorbitante, penso na facilidade que é ser mais uma, e dá uma pontinha de vontade de sumir na multidão.
A comodidade é muito atraente, não dá pra se negar, ontem assisti "A insustentável leveza do ser", empréstimo de Pietro, sozinha, na escuridão da sala de minha casa, rodeada de fantasmas antigos e vazios que se renovam diariamente no meu peito.
O filme é maravilhoso, se passa durante a invasão das tropas soviéticas em Praga, Tchecoslováquia, meados de 1968, um neuro-cirurgião é obrigado a decidir entre o amor e a luta ou o prazer e a comodidade de conformar-se e fechar os olhos.
Sensual, sensível, do tipo que toca a pele por um breve sopro de tempo e imprime sua marca por toda a eternidade.
Sexta fui até a casa dele( isto é seu, devolva o que é meu, depois pego o resto de minhas coisas…) para quebrar os vínculos que não chegaram a existir de fato, o reflexo menor estava lá, sentada na frente da TV, jogando videogame. Ele tentou o máximo de cordialidade e polidez, claro que não funcionou.
Fugi, minhas armas tombaram, eu tombei com os joelhos no chão, senti raiva, ódio, desejei que ele nunca tivesse cruzado os trilhos do trem de minha vida. A simples presença dele me deu ojeriza, não suportei assistir à ruína de meu sentimento.
Não suportei ver o amor metamorfosear-se em repulsa. Fugi porque nunca mais quero sentir isso correndo em minhas veias, não quero que isso se confunda com minhas naturezas.
Não aceito que um sentimento torpe apague a beleza de ter amado, ainda que incompreendidamente. Foi por isso que fugi, e não por causa dele. Essa sensação é indigna de minhas entranhas.
Fui ao shopping (ótimo lugar pra fugir de gente…), banquei a louca num café, pedindo o que o garçom achasse melhor, depois fui assistir o Almodóvar no cinema, sozinha, é claro!
Engraçado, mas depois de todo esse tempo sozinha ainda estranho minha existência solitária, de vez em quando, poltronas vazias num cinema contribuem muito para isso.
Bom, depois do filme choro na escada do complexo de lojas, choro para lavar a alma e fazer chover no mundo, choro compulsivo, entremeado de soluços e perguntas desesperadas…
Sábado, "almoço" com o Pietro (o único capaz de violentar as muralhas de minha tristeza…), onde fui presenteada com um LP do Smiths (raridade!), com um convite para o Almodóvar (vou assistir de novo!) e com uma companhia cheia de vivacidade!
Pietro e eu decidimos casar daqui a 80 anos!
Depois, o aniversário de uma amiga, com toda a galera lá, risos, risos, risos e declarações de amor (até dormi no joelhos de um amigo, com quem já tive um "casinho"!), fotos, assassinato de saudade…
Ontem, depois do filme, insônia e mais choro, como quem tinha desaprendido chorar, e encontrou o caminho para o vale de lágrimas. Lágrimas inundam meus campos estéreis novamente…para fertilizá-los.
*Bem, na larga medida do possível. Aqui ou na China, algumas coisas nunca mudam…
**Como disse hoje ao Nilton, meu corpo reflete as inquietudes da alma…tenho o peso de XV séculos nos ombros.
***Na sexta, o garçom trouxe um cappucino, em meio a um calor de 40°, que não tomei, depois pedi um expresso, que também não tomei… Em minha garganta estavam o amor e o ódio por um homem, e enquanto os dois batalham, nada desce ao meu subsolo… *
***Hoje vou ao trabalho do Pietro depois que sair do meu, pedi pra ele procurar uns livros, tenho que devolver o filme, levar um cd que gravei pra ele, e salvar minha alegria tomando suco de abacaxi com hortelã (que é o favorito dele!).


Comentário por eu — 19 de dezembro de 2006 (7:22)
O vento
“Queria transformar o vento. Dar ao vento uma forma concreta e apta a foto. Eu precisava pelo menos enxergar uma parte fÃsica do vento: uma costela, o olho…Mas a forma do vento me fugia que nem as formas de uma voz.”
Manoel de Barros