Entre meus rins…

As coisas continuam… e continuam sempre.

Sangue…

28 de março de 2007

Sangue. O sangue jorrava pelas minhas pernas, os azulejos brancos confundiam a minha cabeça, já naturalmente confusa, as agulhas penetravam a minha pele, perdi a virgindade das veias.
O líquido me invadia, não pediu licença, não bateu à porta. Penetrada de novo, aquele corpo estranho pareceu queimar todo o meu corpo.

Tontura. Caos. Apaguei numa maca. Quando acordei comecei a contar os azulejos expostos. Arte grotesca. Passei a mão no lençol da maca, longe de ser branco, cheirando os quantos e quantos corpos que se deitaram ali. Quantos homens, quantas mulheres, eu podia viver a vida deles, eu podia senti-la debaixo das unhas.
Eu podia roubar-lhes a essência, mas o sangue continuava a escorrer das minhas entranhas, e a dor dilacerava tudo o que era humano e delicado em mim.

Lutei pra me manter acordada, aquele cheiro me enojava, os médicos me enojavam, aquele ir e vir, aquela gritaria típica de um 24h, choro, urros, eu queria jogar uma bomba naquele lugar.
Apaguei de novo depois de outra penetração pelo aço. Outra agulha, outros corpos no meu sangue, outros sonhos pálidos, e eu não sabia se estava meio acordada ou meio sedada.

Sentir dói tanto quanto não sentir. Eu amaldiçoei o feminino em mim, eu invejei pela primeira vez os donos do pênis. Eu me resignei à dor, não culpe Eva, se eu acreditasse no Gênesis eu a teria culpado, com toda a certeza. Eva, Pandora, eu as teria culpado pela minha dor.

NÃO CULPE EVA! Lembrei de um DM (sigla médica para deficiente mental) que me gritou isso num ponto de ônibus, não sei como chegamos a isso, mas ele ficou enfurecido, gritando sem parar que eu não sabia o que dizia. Embora eu não dissesse nada.

Aprendi a nunca meter o dedo na ferida de Eva. A culpada é a serpente, ele gritava, acho que abriria a minha cabeça pra colocar isso lá dentro se o ônibus não tivesse chegado.

Era o Eterno, o Nada. Ele era o responsável. Eu pagava pela heresia do escolher não gestar. Eu devia procriar como um coelho, mas não quis. O Eterno me castigou, se estivéssemos na época da Inquisição eu teria ido para a fogueira, daí além das veias queimando pela medicação, eu teria todo o resto derretendo.
Um grandioso churrasco! Venham todos assistir à execução da bruxa! A acusação? Ela se achava muito nova pra gestar vidas. Ela foi contra as leis de deus (sim, aqui é minúsculo mesmo!).

E eu que nem me basto em mim, fiquei por horas entre a realidade e o irreal. Louca e sã. Naveguei entre o profano e o sagrado.

A minha hemorragia foi contida, mas a lembrança riscou as paredes da minha alma com pregos, e de repente todo aquele branco, aquele cheiro, aquela gritaria se agarrou em mim. Estão pregados nas minhas entranhas. São partes minhas que me recordam o quanto dói não ir ao encontro do traçado do Eterno.

Gritar verdades é perigoso. O eco sempre arrebenta os tímpanos do herege.

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1 Comentário »

  1. Comentário por Aline... — 29 de março de 2007 (10:21)

    Ai miga como isso é foda… Já pensei em até tirar meu útero e seus derivados… Exorcizar essa dor em mim… Duas vezes ao mês eu sempre desejo ser homem… NOSSA!!! Como eu desejo!!!!

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