A falta que a presença me faz…
2 de março de 2007
Juntando miúdos. Fazendo vitrais. Meu mosaico…
A sensação incômoda da falta. A falta dói. Espaços que sobraram por falta de coisas. Coisas que ficaram sem espaço. Os meus espaços em branco, ah, sou tão vaga! Indefinida como a fumaça que sai da chaleira…
Queria, por vezes, dedos pra brincar no vapor quente da minha natureza. Queria, por vezes, companhia pra solidão (o Nilton bem sabe disso…). Meus discos, meus livros, minhas lutas de vida inteira, meus poemas que não me servem, onde não me encaixo.
A existência solitária a que eu me condenei fere de vez em quando, só de vez em quando.
A guerra diária para afirmar-se perante o mundo (e que não me venham dizer que não fazem isso!), porque a beleza não me foi apenas presente, e a moça é um oceano profundo de coisas. A fuga do rótulo de bela. A beleza não me ajudou, senão raras vezes, não tão significativas.
A beleza castiga.
Parece-me que carrego o mundo nas costas. Atlas que sou. Eu mesma escolhi o caminho das pedras (se fosse fácil achar o caminho das pedras, tantas pedras no caminho não seria ruim…), por capricho, por obstinação. Por uma razão qualquer.
Eu quis brincar de perfeição…
A solidão não incomoda. O que inquieta é a falta de presença…
Os deuses bem sabem o quanto o fardo me pesa. A mulher volta sozinha, ela caminha sozinha, ela dorme sozinha, e ela fica bem assim, como um tubinho preto em noite de festa. Mas o sapato sempre aperta quando ela chega em casa. E quando ele aperta, ela sente faltas.
Tudo bem, que ando acostumada com isso. Tiro os sapatos e atiro pra longe. Volto aos livros, aos discos, à panela de brigadeiro. Volto às lembranças, risco nas folhas o traçado do futuro que quero pra mim. Só pra rasgá-lo depois.
O futuro é do tamanho da palma de minha mão.
“Não pudeste ter toda paciência.
(E tudo isto enfim não há quem conteste)
É que tu és moça, e esta negligência
É o duro quinhão da idade celeste!
Não tiveste, não, bastante doçura,
Mas isto, amargor! Bem se compreende,
É que tu és moça, alva criatura,
Logo deves ser muito indiferente.
Olha, cheio sou dos perdões mais castos,
E calmo apesar desta cicatriz,
Deplorando embora (ó meses nefastos)
Ser graças a ti, o menos feliz.”
Verlaine
*Poemas de Verlaine me servem de companhia neste dia.
** Um velho disco de metáforas do Engenheiros do Hawaii também…
***Ilex Paraguarienses e água quente, sem deixar ferver (há quanto não sento pra tomar meu chimarrão?).
****Hoje, show do Nando Reis…

