Entre meus rins…

As coisas continuam… e continuam sempre.

Pai…

2 de maio de 2007

Quando você está sozinha, jogar pedras no lago não resolve os problemas. E você olha pra todos os lados antes de atravessar a rua. E você fica quieta para ouvir uma outra respiração. E você chora…

Hoje recebi a notícia de que tenho um irmão, por ligação paterna, que está vivo, mora no interior e desconhece totalmente a minha existência. Estou com medo, ele é o fio de ligação entre meu pai e eu, o pai que eu não conheci, o pai que me abandonou quando eu nem tinha um ano de idade, o pai que eu amaldiçoei durante toda a minha vida por não ter estado comigo quando eu mais precisei dele, por nunca ter me segurado para apagar as velinhas do bolo de aniversário, o pai que nunca leu um livro pra que eu dormisse, o pai que nunca me carregou nos ombros, o pai que eu odiei durante dezoito anos da minha vida.
E se ele estiver vivo? Vou odiá-lo por não ter me procurado. E se ele estiver morto? Vou odiá-lo por ter morrido sem ao menos se despedir de mim.
Vou odiá-lo porque eu alimentei um amor por dezoito anos esperando que ele viesse buscá-lo. Vou odiar meu pai pela milésima vez, só porque o amei demais e não pude demonstrar. Vou odiá-lo por todos os dias dos pais em que eu não tinha ninguém para entregar a lembrancinha de papel cartão colorido e cola relevo. Por todas as vezes em que eu não tinha ninguém pra empurrar o balanço pra mim.
Por todos os espaços que sobraram nas folhas dos meus desenhos, espaços esses que eu, secretamente, guardava para um dia preencher com uma figura de cabelos cacheados bem pretos e bigode, com uma pasta na mão, sorrindo e acenando sob um céu azul bem clarinho.
“Não há nada mais nostálgico do que um balanço vazio”, eu disse a alguém ontem. Mentira, há sim: uma criança balançando-se sozinha.

- Quero chuva para lavar as feridas.
-A água está fria, querida. Brinque com as lágrimas. Só não vá enlouquecer!

Tentando manter a sanidade, tentando ser forte, me perguntando por que é tão difícil. Implorando por alguém pra segurar a minha mão, porque eu não quero ficar sozinha.
Olhando o rosto no espelho, tentando resgatar algo meu que perdi…

*O velho armário da despensa guardou todas as minhas confissões de menina feitas a lápis: “Eu quero morrer”, “Deus, me leve daqui”. É, eu ainda usava maiúscula pra escrever deus, e eu rezava todas as noites. De vez em quando eu chorava rezando.
-Foi tudo isso que eu perdi?
**A sua filha hoje tem dezoito anos, trabalha num escritório de dia e cursa Letras à noite. Ela não reza mais, nem faz mais bolhinhas de sabão com o canudo do mamão. Ela ficou bonita, uma tia diz que ela é maior que você. Aprendeu a ler aos cinco anos. Gosta de leite gelado com chocolate. Evita carne porque faz mal à saúde. Gosta de Chico e dos Rolling Stones. Tem um poodle. Acredita num mundo menos hipócrita. Tem um blog e dois e-mails. Tem amigos maravilhosos. Considera a meia irmã do meio a pessoa mais importante da vida dela. Não tem uma relação muito boa com a mãe. Já não sonha durante a noite, mas às vezes se pega sonhando acordada. Tem dois filhos de coração, um menino e uma garotinha linda. Finge pra todo mundo que não precisa de ninguém. Fica com raiva quando ninguém se aproxima dela quando está triste. Tem enxaqueca e não pode comer chocolate. Namora um homem maravilhoso, cujo único erro foi o de não gostar dela. A sua filha quer dar aulas de Literatura. É fumante nas horas vagas. Ainda não aprendeu a fazer café. Guarda todas as cartas, bilhetes e coisas correspondentes numa caixa azul de madeira.
Ela sente saudade, eu acho.
***Desejo do dia? Um abraço para silenciar a dor, café pra acordar a alma, e um pouco de amor em paz…
****Ganhei um abraço de minha meia-irmã mais amada, um pouco da luz do sorriso dela e um suco de goiaba com gelo.

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