Parto, partes, parte…
6 de julho de 2008
As coisas mais estúpidas da minha natureza podem ser bonitas, às vezes. Engraçado, parece que perdi a mão. Continuo me despedaçando com coisas escolhidas a dedo pra me despedaçarem. A vida é, sim, Almodóvar na veia. Mas os ponteiros rodam sem me perguntarem qual a minha vontade. O tempo passeia nos cabelos, e torço pra que dias menos tranqüilos e anestesiados possam surgir.
Já não sento na janela pra ver a rua imóvel. Não espero, sou levada. Demoro meses pra terminar livros, e quase não tomo café. Uma persona nova a cada dia, um gosto a mais, ou a menos, na boca. A natureza humana se vira. Felicidade é um nome bonito de se falar… Sexo é dor. Saudade é dor. Prazer é dor. Amor é dor aos avessos. Tudo é dor. E a dor é bonita, como gérberas laranjas…
Caronte, levando as almas pelo Estiges, é a imagem mais bela que conheci. O movimento das águas tocadas pelo remo. Sou parte da água. Sou parte do barqueiro. Sou parte do rio. Tudo é parte. Qualquer todo é fragmentário como pétalas. E não é a beleza última o conjunto de partes distintas? Unir é um desesperado gesto de doação. E doação é um pouco suicídio.
Todos os amores me fazem parte. Sou parte de todos os homens. E sendo parte de tudo, sou um quase nada em construção.


Comentário por C..Y — 7 de julho de 2008 (18:26)
Aleluia!