Entre meus rins…

As coisas continuam… e continuam sempre.

Você não Sabe Amar

26 de março de 2009

Os pedaços do fim flutuam levemente na água morna. “Você precisa levar o Na Praia, e tem o Rapsódia em Agosto, leva o Sideways pra você ver”. Os fins justificam meios recomeços, ou recomeços de um sem fim lacerante. E eu continuo sem saber o que fazer com as noites, e eu continuo sem saber o que fazer com as mãos, e com a boca, e com os pés. E com a voz da Nana que fica acompanhando o movimento de um diafragma. Será que eu me sento e espero? coloco música? não coloco música? Coloco. Tiro. Coloco. Tiro. Coloco um seriado estranho de espionagem. Deixo e sento pra chorar. Choro. Finjo que durmo. Finjo que acordo.

O fim teve cores diferentes para as partes. Eu, na angústia, seguro firme a minha convicção de algo a ser mudado, de uma fresta para o ar, e me mato a caminhar por entre as ruas com casas que me lembram o México. E me pego louca de vontade de conversar com os garis de uniforme laranja que varrem o asfalto antigo. E atravesso o parque roída de vontade de passar a mão nas folhas que encontro. E arranco pequenos galhos, que estão na minha bolsa, em meio aos fones de ouvido, o cartão do Curta Petrobrás às Seis, os fiéis horários de ônibus, cabos, cds, conversas, confissões.

Na rua de pedras, depois da peça, meio palhaça, meio sentida, enfio-me no meio daquela árvore que não sei o nome, das flores que parecem de laranjeira, mas que cheiram damas, damas da noite. O inferno não são os outros, nem as baratas, nem o inferno. O inferno é o amor, que uma hora é tão completo que nos obriga a emergir pra respirar, e, logo em seguida, nos enche de um vazio tão profundo que passamos a achar poéticas as imagens dos carros em movimento.

Pateticamente perdidos, “você vai mesmo terminar comigo?”, mas é que, meu amor, ontem fez um mês de fim, e eu ainda não sei se isso é o fim, ou se é uma continuação meio aos pulos. É que eu não descobri o que fazer com o amor ainda, e ele está aqui, enrolado nas minhas pernas de puta, com a fumaça do cigarro que eu, imaginariamente, num movimento automático, seguro, pra me acalmar. Ele está aqui, e cobra tão caro a sua presença miserável que às vezes eu lhe enxoto, e prefiro os três travesseiros milimetricamente dessarrumados da cama.

E se eu pudesse, ao menos, saber o que fazer com as mãos e seus gestos débeis! Se eu pudesse soprar as novas impressões que eu descobri na minha pele junto com o café quente que eu não tomarei por estar muito frio. Se eu pudesse esquecer todas as impulsivas palavras que usei pra conversar comigo, em espanhol, nessas ruas sem graça, carregadas de um regionalismo barato e piegas, mas não posso! Ainda não posso. E não posso também queimar minha cama, por saber que ainda, ai, como me dói, eu tenho apego aos ossos salientes de meu rosto.

A verdade brinca de ser verdadeira, e escapa pela fresta da porta que eu não fechei. “Quais são os seus pecados, minha filha?”, mas, se não tenho deuses, teria pecados, meu Pai?
O inferno é olhar demoradamente meus pulsos, e ainda ver as veias azuis que teimam em passear na pele feita de escuridão.

 

* Trilha das noites sem cigarros, sem cafés e sem graças, para que eu tenha vontade de sofrer ainda mais, porque o prazer é orgia e martírio: Nana Caymmi, Quem Inventou o Amor? Quem, quem, quem teve a pachorra de inventar tamanha agonia no meu peito?

** Eu sei, eu sei, eu não sei amar, meu bem

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